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O Quilombo do Livramento e a Cutilada (Esquenta Muié)

novembro 16, 2009
A música folclórica é a música popular, música do povo. Suas características são próprias e podem ser representadas através de instrumentos musicais como: zabumba, pífano, sanfona, pandeiro, etc. São as bandas musicais criadas pelo povo e representantes dos seus sentimentos mais profundos.
No município de Triunfo há uma destas pequenas bandas, cuja origem é de caráter religioso e recebe o nome de “Cutilada” ou “Esquenta Muié”.
O sítio Livramento originou-se de um engenho e de uma bolandeira que funcionavam naquela região.
O proprietário, vindo de uma terra distante, trouxe consigo escravos que após a abolição e extinção do engenho e da bolandeira, permaneceram nesta localidade, bem como seus descendentes, trabalhando na agricultura.
Há comentários de que o negro mais velho de que se tem notícia ali, chamava-se Manoel José dos Santos. Por ser muito forte e destemido era conhecido como Mané Quebra Serra.
Houve uma época em que apareceu no Livramento um negro que se suponha haja vindo da Zona da Mata. Era conhecido como Mestre Mane Praieiro e residia no sítio Águas Claras (sítio vizinho ao Livramento). Era professor na localidade: ensinava a ler e escrever, a cantar “incelença” (cantata em homenagem aos mortos muito usada nos velórios daquela época) e ainda a dançar coco de roda. O coco era dançado por homens e mulheres. A cachaça tornava a dança mais animada. Negro é doido por coco e cachaça.
Os negros do Livramento mantiveram seus costumes e tradições através dos anos.
Dentre os moradores da região dos negros, já em nossa época, destacou-se o negro José Patrício apelidado de Zé Gago, por apresentar este defeito na fala.
Zé gago era de estatura elevada, fisionomia sincera, andar firme, pés e mãos enormes. Contam que em nenhuma sapataria local havia calçados cujo número se ajustasse ao tamanho dos seus pés. Eram necessárias alpercatas sob encomenda para que pudesse servir-lhe.
Possuía duas irmãs: Constância e Maria, ambas de boa altura, calmas, ponderadas, de boa índole. Maria era apelidada de “Maria Onça” não que tivesse a ferocidade deste felino, não! Assim chamavam pela sua feiúra fora do comum. Tinha o rosto exageradamente comprido, queixo curvo para frente, olhos pequenos e apertados. Muito alta, magra, andava curvada para frente, braços finos e pendentes. Mas como diz o adágio “o hábito não faz o monge”. Naquele corpo desengonçado e feio, pulsava um coração de ouro, sempre calma em suas ações.
José Patrício, devoto de São José, santo padroeiro da localidade onde vivia, criou um grupo musical: a “Cutilada” – para melhor homenagear a Festa do seu santo que se realiza todos os anos na capela ali existente e que foi construída há muitos anos pelo pároco da época, Monsenhor Luiz Eliseu. Com novenas, musicas e foguetes é homenageado o Senhor São José.
A “Cutilada” ou “Esquenta Muié” como também é conhecida era constituída, na época da sua fundação, dos seguintes instrumentos: zabumba, pandeiro, tambor, pífano e harmônica. Zé Gago tocava zabumba, João Rosa era pifeiro, Nego Véio tocava tambor e Aluísio Pereira a harmônica.
Na capela do Livramento há o dia máximo da festa: 19 de março, dia do santo. Antes do início da novena, já se ouvia os sons festivos da “Cutilada” e o espocar de fogos no ar. Após a novena todos os tocadores rodeavam o altar, tocando os seus instrumentos e cantando com muita reverência: Licença para nós Beijar.
Logo em seguida, começava o forró. Todos podiam dançar, beber e se divertir, desde que se comportassem de modo adequado aos costumes e a moral. Quando algum metido a valente excedia-se na bebida e provocava brigas, amarravam o desordeiro num tronco no qual passava o resto da noite para não incomodar os que desejavam divertir-se de maneira pacífica.
Se por acaso surgisse algum branco na festa era sempre bem recebido e podia participar das festividades, desde que não se metesse a conquistar alguma negra bonita da comunidade. Neste caso, era chamado e cuidado e cerimoniosamente por Zé Gago: “Meu branco, nós quer respeito; só dança com a menina se tiver o consentimento do pai dela. Meu branco pode se divertir, mas com respeito”.
A “Cutilada” não tocava somente na Festa de São José. Todos os anos no mês de dezembro, na Festa da padroeira de Triunfo, vinha à cidade com seus componentes animar os festejos. Saiam do Livramento na tarde do dia 24 e percorria toda a estrada que levava à cidade (cerca de 12 Km) tocando. Desfilavam pelas ruas sempre tocando e permaneciam em Triunfo até o dia 1º de janeiro – Dia de Ano – quando voltavam ao seu lugar de origem.
Ainda hoje, no mês de festa (dezembro), podemos ver pelas ruas de Triunfo o “Esquenta Muié”. Mas, muito embora, uma sombra do que foi no passado, desfila tocando modinhas alegres durante todos os dias das comemorações da festa de Nossa Senhora das Dores.
Texto enviado pelos organizadores do III MOMENTO DA CONSCIÊNCIA NEGRA DE TRIUNFO/PE
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