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Alceu Valença brinca com o tempo

novembro 8, 2009
No primeiro longa-metragem, o cantor reinventa Lampião e Maria Bonita, que observam o mundo através de uma luneta roubada do Diabo

Por Júlio Cavani

juliocavani.pe@dabr.com.br
Extraído do Diário de Pernambuco
Alceu Valença criou seu próprio método de fazer cinema quando decidiu dirigir o primeiro longa-metragem, A luneta do tempo, cujas filmagens começam nesta segunda-feira, no interior de Pernambuco, nos municípios de São Bento do Una, Pesqueira e arredores. Sua preocupação com a musicalidade é tão grande que ele resolveu, antes de começar a filmar, gravar em áudio o roteiro inteiro. Antes das imagens, portanto, Alceu já preparou o som. É como se ele tivesse feito um storyboard sonoro, formado por todos os diálogos, músicas e alguns efeitos de cena.
“Esse filme é uma ode à cultura nordestina e sobretudo pernambucana. Estou fazendo um inventário, um memorial dessa ancestralidade, mas tudo dentro da minha visão”, anuncia o cantor. “Minha visão de cangaço, neste filme, é totalmente diferente de tudo. Vou mostrar Lampião e Maria Bonita depois de mortos”, antecipa. O casal de cangaceiros será vivido pelos atores pernambucanos Irandhir Santos (Besouro) e Hermila Guedes (O céu deSuely). Depois de irem do céu ao inferno, Lampião e Maria vivem em uma dimensão paralela, de onde observam o mundo através de uma luneta que foi roubada do Diabo. “Eles observam a história de trás pra frente e de frente pra trás e assistem até a queda das torres gêmeas”, ilustra o agora cineasta.O próprio Alceu Valença, que nasceu em São Bento do Una, também está no elenco. Ele interpreta um diretor de cinema que também volta à sua cidade natal para filmar uma história de amor e vingança. Entre os personagens “do filme que existe dentro do filme” estão o dono de um circo, um tenente e um cangaceiro. O artista circense se envolve com a mulher dos dois inimigos e tem filhos com elas sem que os maridos cornos saibam. A verdade é revelada quando os meninos crescem, em uma cena cheia de alegorias que se passa em pleno picadeiro, durante a encenação de uma peça. Os fantasmas de Lampião e Maria Bonita assistem a tudo enquanto circulam entre os personagens sem serem vistos.Alceu escolheu a vila de Cimbres, em Pesqueira, que está mais preservada, para representar a São Bento de antigamente, em uma reconstituição em parte baseada nas suas memórias de infância. “Comecei a pensar nesse filme depois da morte de meu pai”, conta o artista. Alceu se mudou para o Recife quando era criança, foi para o Rio de Janeiro depois de adulto e sempre voltou ao interior, mas nunca mais tinha passado uma temporada tão grande quanto a que vai enfrentar durante as filmagens (“inventei esse filme pra voltar pra cá”).”Meu filme é filosófico e está acima dessas discussões sobre o cangaço. Não importa se os cangaceiros eram vilões ou heróis. O roteiro versa sobre o sentido do tempo. É uma tragédia da condição humana. Lampião se questiona sobre o que é a morte e a vida, sobre o que é Deus e o que é a lua”, reflete Alceu. “A primeira cena se passa em uma feira de antigamente. Aí você vai ver toda a nossa cultura pungente, viva, brasileira, nordestina, mediterrânea, portuguesa, lusitana, africana, ameríndia…”Além de já ter gravado tudo, Alceu, que escreveu todo o roteiro com diálogos em versos rimados, sabe decoradas as falas dos personagens. “O poder é irmão da polícia que é prima carnal do estado e cega como a justiça”, recita para exemplificar um dos trechos.Além de Irandhir e Hermila, estão no elenco Servilio Holanda, Emanuel Cavalcanti, Tito Lívio, Jones Melo, o músico e dançarino Hélder Vasconcelos, o cantor Charles Teony, o rabequeiro Gustavo Azevedo, a cantora Khryztal, os sanfoneiros Ari de Arimatéa, André Julião e Mardônio, o equilibrista Diabolin, o palhaço Borica Trindade, três filhos de Alceu Valença e mais amigos que ele recruta pelo caminho. A direção de arte é de Moacyr Gramacho (Deserto feliz) e a fotografia de Luis Abramo (Eliana em O segredo dos golfinhos). Segundo o cantor, “minha obra musical sempre foi muito cinematográfica na medida em que eu descrevo coisas nas canções que são puro cinema. Tem até cenas em câmera lenta…”

Fonte: Diário de Pernambuco

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/11/08/viver7_0.asp

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