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Um pouco de João Pacífico

agosto 5, 2009

MOURÃO DA PORTEIRA

Lá no mourão esquerdo da porteira
Onde encontrei vancê pra despedir
Tem uma lembrança minha, derradeira
É um versinho que eu lhe escrevi

Vancê, eu sei, passa esbarrando nele
E a porteira bate pra avisar
Vancê não sabe que sinal é aquele
E nem sequer se alembra de olhar

E aqui tão longe eu pego na viola
Aquele verso começo a cantar
Uma saudade é dor que não consola
Quanto mais dói a gente quer lembrar

No dia que doer seu coração
De uma “sodade” que eu tanto senti
Vancê, chorando, passará no mourão
E lê o verso que eu nele escrevi

TAPERA CAÍDA

Cabocla, se ocê soubesse
Quanto meu peito padece
Sofrendo tanta maldade
Vancê, eu sei, num se ria,
Mostrando tanta alegria,
Vendo eu chorar de sodade.

Essa sodade marvada,
Que fez no peito morada,
Depois que ocê me deixou,
Como tapera caída
Que foi p’os mato invadida
Depois que os dono mudou.

Vancê num sente saudade,
Ri de felicidade,
Tem outro amor, tem prazer.
Mas vancê, eu sei, de contente,
Tem inveja dessa gente
Que não sabe o que é sofrer.

Cabocla se ocê soubesse
Quanto meu peito padece,
O que já passei na vida,
Vancê roçava esse mato
Que invadiu só de ingrato
Essa tapera caída.

Mas eu comparo a saudade
Com essa grama tiririca,
As foia verde se arranca,
Mas a raiz sempre fica.
E o coração é morada,
Sem morador não tem vida.
Vorte a reconstruir
Esta tapera caída

AMOR E CIÊNCIA

Meu amigo: Só falo um idioma,
Sequer eu tenho diplomas,
Jamais fui colegial.
Não invejo cientistas com estudo profundo,
Querendo inventar novo mundo,
Um mundo artificial.

Não invejo engenheiros e arquitetos
Fazendo tantos projetos,
Mais que fez o criador.
Quero ver toda essa sumidade
Inventar outra felicidade,
Igual a minha estória de amor.

Meu amor! Tão fácil foi de inventar,
Com um sorriso, um olhar
Tenho o meu mundo feliz
Sem diplomas construí modesto ninho,
Cientista fui de carinhos
Tudo pra ela eu fiz.

E você, falando cinco idiomas
Tem nas paredes diplomas,
És bacharel, és doutor!
Não condeno, mas vou dizer com franqueza,
Que vale tanta nobreza.
E um coração sem amor?

PERTO DO CORAÇÃO

Eu quando pego a viola
E sinto roçar no peito.
Eu canto até de outro jeito
Pra minha mágoa esquecer.
Eu tenho guardado nela
Com jeito e muito carinho.
Aquele seu retratinho
Que faz lembrar de você.

A viola sabe que o peito
É onde o amor faz seu ninho.
Viola é feito de pinho
Mas ela tem coração.
Por isso todo caboclo
Que tem amor tem viola.
Esse meu pinho consola
A minha grande paixão.

Por sua causa cabocla
Nas horas que estou sozinho.
Eu passo a mão no meu pinho
Faço o peito soluçá.
Olhando o seu retrato
Eu canto a minha canção.
Que é perto do coração
Onde você sempre está.

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