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CENTENÁRIO DE JOÃO PACÍFICO

agosto 5, 2009

“Um fiozinho d’ água desviou de um riacho
Veio vindo serra abaixo e passou no meu pomar
Encontrou uma pedra, ficou sua companheira
Brincaram de cachoeira e aqui ficaram pra morar.
E hoje da janela eu contemplo a cachoeirinha
Que ficou minha vizinha desde que a vi nascer
Seu murmúrio doce é um verdadeiro canto

É quem me serve de acalanto para eu adormecer.”
João Batista da Silva, nos idos de 30, quando convivia com os astros do rádio, ganhou o apelido de Pacífico, ajustado à serenidade do interiorano, que evitava qualquer situação encrencada. Nascido na fazenda Cascalho, em Cordeirópolis (SP) em 05/08/1909, neto de escravos, filho de mãe alforriada e de pai maquinista de trem, estava predestinado a uma vida de aventuras, alegrias e provações.
Personagem lendário da música caipira, faleceu aos 89 anos em 30 de dezembro de 1998, como a maioria dos “NOSSOS CAIPIRAS”, esquecido pela mídia e pelo mercado. Sabe-se a princípio que deixou 256 músicas gravadas, 36 com Raul Torres, seu principal parceiro. Até o fim de sua vida manteve o hábito de compor batucando na mesa da cozinha, com uma folha de papel e um lápis na mão. Estima-se que pelo menos duas dezenas de músicas ficaram inéditas.
Nunca aprendeu música, mas ao criar três canções pro filme Cabocla Tereza, João surpreendeu a todos os músicos. Cantava as notas com precisão para que eles escrevessem as partituras.
Sua carreira foi longa e fértil. Nas prateleiras do quartinho onde guardava suas coisas, velhos LPs e CDs mostravam o quanto foi reverenciado por artistas como Tião Carreiro, Carreirinho, Moreno e Moreninho, Cascatinha e Inhana, Rolando Boldrin, Inezita Barroso, Nelson Gonçalves, Sérgio Reis e tantos outros artistas.
A vida de Pacífico é a clássica história do menino pobre da região rural paulista que enveredou pelos caminhos da música e foi lutar pela sobrevivência na cidade grande. Garoto mudou-se para Limeira e aos 10 anos para Campinas. Mas quando chegou a São Paulo, sozinho, aos 15 anos, com uma sacola de roupas velhas e uma cartinha de recomendação para trabalhar numa fábrica de tecidos, queria apenas casa e comida.
Sua sorte começou a mudar quando trocou o emprego que mal dava o que comer por um emprego de lavador de pratos do vagão-restaurante de um trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Através de um conhecido nesse emprego, chegou com uma carta de recomendação aos bastidores da Rádio Record, procurando pelo grande Paraguassu, em 1933. Levava consigo sua embolada “Seu João Nogueira” para apresentar na rádio. Depois de recusado inicialmente por um dos “cantores de ouro” da época, foi recebido por Raul Torres. Ainda assim Raul o desprezou de imediato, dizendo não ter tempo a perder. Sem desistir, finalmente, num outro dia, conseguiu que Raul Torres passasse os olhos pela letra e o ouvisse cantar. Pra sua surpresa, anunciou que a gravaria, na Odeon, já assinando parceria. Nascia aí um dos casamentos mais produtivos da música popular.
Nos anos seguintes, com a música “Chico Mulato”, lançou a poesia declamada, antecedendo a música. A idéia encantou Torres, mas causou estranheza na gravadora. Os técnicos insistiam que com a parte declamada a música não caberia no 78 rpm. Os autores não arredaram o pé de mantê-la como estava e o homem foi à fábrica pedir que se reduzisse a distância entre os sulcos para que “Chico Mulato” coubesse no disco. Foi só começar a tocar nas rádios, Mr. Evans (diretor da RCA-Victor) chamou imediatamente João Pacífico para que fizesse mais músicas do mesmo tipo. Estava criada a partir daí a fórmula batizada de “toada-histórica”. O maior sucesso da parceria viria na mesma fórmula, com “Cabocla Tereza” em 1940.
O retorno financeiro poderia ter sido melhor, no passado, se tivesse enfrentado os microfones, mas ele não quis se aventurar por estes caminhos.
Com instrução que parou no primário, é surpreendente, na sua obra, a qualidade de construção poética, que atraiu elogios de Manuel Bandeira e de Guilherme de Almeida. Boldrin o considera o “Noel Rosa da música caipira, um mestre”, e chorou sua morte como a do último representante do gênero.

FONTE: Extraído do Livro “Música Caipira da Roça ao Rodeio”, de Rosa Nepomuceno

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