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Magno Martins e o Sertão de ontem.

julho 12, 2009

A seção Opinião do Diário de Pernambuco de hoje, nos revela um filho do Pajeú saudoso de um sertão mais simples, porém apaixonante, poético. Seguem abaixo as palavras do jornalista Magno Martins.

O Sertão que vivi era melhor

Magno Martins

Jornalista

magno@blogdomagno.com.br

Aquele sertão em que nasci, brinquei e curti a minha adolescência (ou aborrecência ) só existe, hoje, na minha imaginação, nas doces recordações que nunca morrem. As coisas boas da vida nunca morrem. Como diz Rubem Alves, furam a nossa alma e deixam lá uma cicatriz eterna. Parti da hoje centenária Afogados da Ingazeira há 30 anos, mas a sua imagem continua pendurada em casa como aquele retrato de Drumonnd – que dói e fere de saudade. Não me apaixona o sertão de hoje, mas o de ontem. As notícias não chegavam pela televisão nem pela internet, como hoje. Chegavam pelo rádio e se difundiam no boca a boca. Jornal? Já chegava de tardezinha, mas mesmo assim “seu Amaro Pé de Pato”, responsável pela distribuição do mais do que centenário Diario de Pernambuco, saía pelas ruas gritando as manchetes. Não me apaixona um sertão em que o cavalo foi substituído pela moto e já existe até vaquejada puxada por vaqueiros motorizados. Não me apaixona um sertão em que as românticas noites de lua cheia, que encantavam enamorados em serestas, viraram iscas para o mundo das drogas em baladas de um roque de gosto duvidoso ou um forró estilizado de duplo sentido. No Sertão em que fui feliz, os brinquedos eram boi de osso e carro de madeira. Carrinho de plástico, só quando meu pai trazia do Recife. Lembro das longas esperas pelo meu pai na velha estação ferroviária. A saudade dele era grande. Mas não era só isso. A nossa mente ficava povoada pela expectativa de ganhar um carrinho moderno de plástico. Era o verdadeiro encontro com a felicidade.Não me apaixona um sertão em que a criançada não joga mais bola de gude, mas videogame. Que não empina papagaio, que não joga futebol com bola de meia, que não brinca mais de esconde-esconde e tantas outras diversões que, de tão puras, criavam naturalmente uma barreira frente à civilização. A paixão firme e forte continua pelo sertão em que adormeço com o encanto das estrelas do seu céu limpo e infinito. Pelo cheiro do marmeleiro, pelo cantar do sabiá e do galo de campina. Todo sertanejo cheira a bode, dizia Luiz Gonzaga. Trata-se de uma figura de linguagem para caracterizar a sua gente simples e desprovida de vaidade. Luiz Gonzaga tem razão. O bode talvez seja, hoje, o animal que represente com mais propriedade a força do homem sertanejo. No passado, já foi o jumento, animal sagrado, quase em extinção. Que os ventos da modernidade deram um ar diferente ao sertão da centenária Afogados da Ingazeira, não há a menor dúvida. Mas, para mim, estar no sertão, é dormir em rede ao ar livre e acordar com a passarada. É tomar leite de vaca fresquinho no curral de gado vendo o sol raiar. É comer xerém com leite, cuscuz com bode, pão doce com manteiga de garrafa, rapadura nas feiras livres, andar de jumento nas veredas dos sítios, ouvir o canto da acauã, matar preá na boca da noite, tomar banho de chuva na bica, colocar a cadeira na calçada e fuxicar, até o vizinho sentir que a orelha está ardendo. É, enfim, ficar olhando o tempo passar bem devagarzinho, bem preguiçoso.

FONTE: DIARIO DE PERNAMBUCO

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/07/12/opiniao.asp

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