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Carro de boi ganha festival em Flores

junho 17, 2009

SERTÃO // Frota do município, a 394 quilômetros do Recife, chega a cerca de três mil veículos distribuídos pela área rural
Sebastião Araújo // Especial para o Diário de Pernambuco

Não adianta criticar nem achar que o secular veículo está fora de moda em tempos de globalização. Pensar que, em pleno século 21 eles lembram uma realidade típica do Brasil Império é não querer reconhecer que, sem a força e valor útil do carro de boi o cotidiano dos sertanejos não seria o mesmo. Em Flores, a 394 quilômetros do Recife, o primitivo veículo não somente gera uma frota de aproximadamente uns três mil, como pode ser visto no concurso que reúne dezenas deles, no próximo dia 24, a partir das 16h. O evento é promovido pela Secretaria de Turismo, Cultura e Eventos. Oriundos de diversos cantos do município, os carros estarão concentrados no pátio existente ao lado da antiga estação ferroviária de onde seguirão em cortejo até a praça Dr Santana Filho, no Centro. Diante da comissão julgadora serão avaliados pela originalidade e decoração. Haverá premiação em dinheiro para os três primeiros colocados.Ao longo das estradinhas, em direção aos vários sítios e distritos de Flores, dá para ver diante de casas simples, perdidas no meio do mato, um ou dois carros de bois. “Nem a moto conseguiu tomar o lugar dele”, analisa a pesquisadora Diana Rodrigues, de Triunfo, estudiosa dos hábitos e costumes dos sertanejos. Apesar dos avanços nos meios de transportes, o carro de boi continua tendo o uso garantido para transportar pessoas e cargas no meio rural. “No início do século passado, meu avô José de Antonino fazia o transporte de produtos fabricados na casa de farinha da família”, relembra Diana Rodrigues. “Até hoje, as pessoas ainda o usam como meio de transporte diverso”. Em Flores, a utilidade do carro de boi vai mais além. No rigoroso inverno do ano passado, ajudou no transporte dos moradores do distrito de Fátima, que ficaram ilhados. “Somente ele conseguiu vencer a água e a lama servindo para desatolar os carros e, inclusive, transportar os alunos às escolas”, recorda o administrador de empresas Luiz Campos Júnior, que acompanhou de perto o trabalho dos carreiros no socorro aos atingidos pela cheia do Rio Pajeú e de riacho em várias áreas do município.Ajuda – Rústico e simbólico do meio rural brasileiro, o carro de boi faz parte do dia a dia da agricultora Josefa Alves de Carvalho, 52, moradora da comunidade Saco do Romão, distante doze quilômetros do centro de Flores. Transporta água, lenha, capim, milho e feijão plantados na roça da família. “A gente usa o carro grande para carregar as coisas da roça e o pequeno para passear”, comenta a camponesa.
Sentada no banco do pequeno carro de boi, ao lado da nora Maria Andréa de Carvalho Silva, 26, Josefa aproveita o domingo pela manhã para dirigir-se à casa dos parentes. Os bois recebem um tratamento especial do filho de Josefa, José de Carvalho Silva, 23. “Faço tudo para que eles não sofram, dando, principalmente, uma boa alimentação”, diz. Ele também utiliza o tradicional veículo para arar a terra. “Só pega na enxada quem quer, pois o carro de boi faz tudo”, garante. O também agricultor Luiz Eduardo da Silva, 58, afirma que nãoconseguiria viver sem os benefícios do carro de boi. “Ele nos ajuda na época de seca, servindo para transportar água de lugares distantes. No inverno, também nos socorre, enfrentando a lama nas estradas”, revela.Na comunidade Riacho dos Henriques, os carreiros contam com a oficina do agricultor José Carlos Vieira, 45, o Neno. Na profissão há cerca de 20 anos, ele tem uma clientela fixa de uns 15 clientes que o procuram principalmente para serviços de manutenção dos carros. Os consertos e preços são os mais variados possíveis, indo da troca de um eixo à substituição de chedas. Na região, Neno é um dos poucos que também fabricam o carro de boi, que custa em torno de R$ 1 mil. “Há muito tempo que larguei a enxada pela oficina e não tenho do que me queixar”, gaba-se o mecânico.

Importância na história e na cultura

Nos primeiros tempos da colonização, além de manter em movimento a indústria açucareira da roça ao engenho, do engenho às cidades, o carro de boi mobilizava a maior parte do transporte terrestre durante os séculos 16 e 17. Transportava materiais de construção para o interior e voltava para o litoral carregado com pau-brasil e produtos agrícolas produzidos nas lavouras interioranas. No Brasil colonial, além dos fretes, o carro de boi conduzia famílias de um povoado para outro. Uma realidade que se estendeu até os dias atuais em várias regiões do interior do país.Mesmo com o aparecimento de tropas de burros, num determinado período da história, depois com o uso dos cavalos para puxar carros e carroças, o carro de boi não perdeu espaço. Automóveis e motos também não o fizeram perder a primazia no meio rural. Introduzido pelos colonizadores portugueses, ele sofreu algumas mudanças na fabricação. A mais notada foi a substituição da roda de madeira com aro de ferro, o que dava o som estridente, chamado de canto oulamento, por pneus. Apesar de não ser mais o cantador de outrora, ainda continua fazendo parte da nossa cultura popular.

Fonte: Diário de Pernambuco

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/06/17/interior1_0.asp
Texto: Sebastião Araújo
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