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DISTORÇÃO CULTURAL EM JERICÓ

maio 1, 2009
Por Denis Gomes
Eu não poderia ser omisso e calar-me diante de um verdadeiro contra-senso.
Antes de iniciar, quero mais do que nunca me blindar contra quaisquer conotações de cunho político-partidario ou pessoal que possam vir a serem atribuídas ao que se segue.
Gente, confesso que estou um tanto quanto frustrado ao ver um projeto deflagrar-se no que não deveria ser. Para ser mais direto, falo da Jornada Cultural de Jericó.
Tive a oportunidade de estar durante os últimos três anos vivendo de dentro todas as experiências de um festival que poderia ser o que, ao mesmo tempo, é em São Paulo (Virada Cultural), no Cabo (Festa da Lavadeira) entre outros grandes eventos que celebram a arte e a cultura verdadeira. Ali em Jericó, coordenei a maratona cultural nos anos de 2006 e 2008 e apresentei voluntariamente em 2007. Em todas as edições o espírito era de alegria, orgulho no peito, harmonia e muita dedicação em prol da grande reunião de grupos oriundos de todo o estado de Pernambuco e até da Paraíba. As amizades e o conhecimento contribuíram e muito para os feitos e foi assim que construímos um verdadeiro mural cultural no pequeno distrito, com poucos recursos financeiros, mas muita boa vontade. Por lá passaram, por exemplo, Banda Isaias Lima, Ambrosino Martins, Templários Acústicos, Grupo Oásis de Capoeira, Orquestra Edição Extra, Lótus e Percussão, Expressarte, Encantos e Danças, Trecas de Caretas, Bonecos Gigantes do carnaval de Triunfo, Maracatu Nação Serra Grande do Pajeú, Cia de Danças do SESC-Petrolina, Cia de Danças Populares de Tuparetama, Xaxados Manoel Martins, Cabras de Lampião, Cangaceiros de Vila Bela, PETI Arte, Bandoleiros de Solidão, Luar do Sertão, Arte Dança, Coco Raízes de Arcoverde, entre outros.
Os primeiros dias de maio passaram a ser aguardados com muita ansiedade e depois guardados com muita satisfação; configuraram-se numa grande reunião onde artistas das mais diversas linguagens trocavam experiências e buscavam o aperfeiçoamento para ser demonstrado no ano seguinte. As escolas tomaram gosto, experienciaram várias participações e a comunidade local vestiu-se com enorme ânimo e ampliou a sua percepção quando passou a conhecer novas formas de se enxergar o mundo.
Este ano não só eu como uma grande parcela da classe artística triunfense não estará lá. Motivo: distorção cultural do evento.
Fui procurado há uns meses atrás pela minha amiga Heloísa Cândido – uma das coordenadoras do grupo e grande baluarte jericoense – para que eu ajudasse na construção da Jornada, visto que já dominava o seu ritmo, tinha muitos contatos, enfim, experiência. Prontifiquei-me, afinal gosto do Renascer do Sertão – grupo que organiza o evento – e também do povo de Jericó que sempre me recebeu muito bem. Envolvi na estória todos os meus amigos possíveis, que são as verdadeiras lideranças artísticas da nossa cidade, para ajudarmos na promoção do evento. Todos concordaram, exigindo apenas um mínimo de condições, quais sejam: traslado, lanche, pequena ajuda de custo. Emprestei meus créditos, entrando em contato com muita gente, entre eles, posso citar: Coco Raízes de Arcoverde, que semelhante ao ano anterior, celebrando uma “amizade nossa pessoal” irá comparecer ao evento 0800, exigindo apenas o transporte; da mesma forma o Luar do Sertão das belas meninas de Custódia, Cabras de Lampião e Manoel Martins de Serra Talhada. Já, após a semana santa, a (em constituição legal, porém organizada) Sociedade dos Artistas e Produtores Culturais de Triunfo participou de uma reunião com a diretoria do Grupo Renascer do Sertão. Estavam presentes: Denis Carlos, Lucivaldo Ferreira, André Vasconcelos, Cristiano Montalvão, Paulo Henrique Martins, Igo Martins e Heloísa Cândido, Marcos e Maria (os últimos 03 do Renascer). Fizemos as nossas propostas de levar para a Jornada um mini-seminário, composto por três palestras, o apresentador do evento, o Maracatu Nação Serra Grande do Pajeú, a Banda Isaías Lima, o grupo Lótus e Percussão, o grupo Expressarte de Danças, a banda Projeto Tonhão, a dupla eletrônica Radiola Serra Alta , o grupo Templários Acústicos e o bloco cultural boisinho do Vaiquemqué. Para nossa surpresa, ficamos sabendo que a prefeitura Mul. De Triunfo estava ofertando para a Jornada o cantor Sandrino Ferraz e sua banda e que os promotores do evento haviam fechado com o senhor Raimundinho (empresário local) uma parceria para inserir a sua boate na programação do evento.
Não querendo ser ingerentes, a ponto de conduzir a programação ao nosso bel-gosto resolvemos nos afastar do processo, visto que, embora não tendo nada contra o cantor Sandrino Ferraz, que é uma pessoa boa, um lutador, nem tampouco contra o meu amigo de prosa e “tome duas lapadas” Raimundinho; somos convictos de que nem a proposta do trabalho de um nem a do outro são viáveis para a saúde do evento, que mal começou e corre o risco de já beirar o seu ocaso. Pasmem ainda, nobres amigos leitores, que todo este material ofertado de Triunfo sede iria praticamente a custo zero. Dez atrações por apenas R$ 1200,00, ao contrário do cantor que me é do conhecimento que não faz um contrato por menos de 3 ou 5 mil reais, dependendo da ocasião. Pela segunda vez consecutiva e bem próxima, os artistas de casa ficam de fora. Isto é má vontade ou é conceito? È desorganização ou sensatez?
Nossa não ida é apenas um sinal de que não concordamos em compactuar com a contra-cultura, com a atitude despótica de se “empurrar goela adentro” uma atração mesmo contra a vontade de um grupo (segundo depoimento deles ao se referirem ao cantor; o que duvido muito, pois sei que a turminha não quis se bater com o prefeito e gosta de folia na boate); não compactuamos com a ingenuidade da diretoria do grupo ao aderir ao adágio que diz: se não pode com ele junte-se a ele e propor uma parceria com uma boate que não traz nada de bom para a natureza do evento; não compactuamos com a falta de comunicação, mais uma vez evidente, dos gestores para com os artistas importantes para o evento; não compactuamos com as atitudes forjadas e as missas de corpo presente de muitos que, por exemplo, sobem o morro para posarem de cordeiros e amantes das artes e da cultura a frente do presidente do Sistema Fecomércio, sem, se quer terem assistido a um Sonora Brasil ou Palco Giratório; não compactuamos com as cifras do empresariado local que pouco se voltam para um investimento de cunho social e enfim; não compactuamos com a degeneração deste evento que poderia ser grandioso e marcante no sertão, sem as distorções que lhe estão sendo impostas.
É uma pena, mas chego a sentir vergonha de chamar de Jornada Cultural um evento que ancora uma noite de fim de semana com o cantor de vaquejada ao invés de um Coco Raízes de Arcoverde e Projeto Tonhão, que troca o Radiola Serra Alta e um bom forró pé-serra de Zé do Brejo ou outros tantos que temos pelo ritmo descartável que impregna a alma dos freqüentadores da boate de Raimundinho, lavando-lhes o cérebro. Poderíamos ter um cenário de produção de cultura, de conhecimento, mas infelizmente a infeliz aliança que se constituiu para enfrentar o tentame preferiu a usurpação do nome dado ao evento: Jornada Cultural de Jericó. E olhe que este tipo de confusão de nomenclatura não é de agora. Carnaval, a exemplo deste ou daquele de 2000 (nem a Isaias tocou), quando se fala em “Praça do frevo” entende-se Praça do Pagode.
Precisamos nos entender mais, conversar mais, levar entretenimento com conteúdo e não se valer de momentos como este para promover mais um momento que cuidará para distorcer até mesmo o próprio conceito de festas populares. Se não tivermos consciência disto, nossos castelos de sonhos cairão.
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2 Comentários leave one →
  1. maio 5, 2009 4:08 pm

    É disso que a cidade precisa: alguém com conhecimento no assunto e que exponha para todos aquilo que muitos gostariam, mais poucos o fazem……mostrar ao povo de TRIUNFO que a cidade realmente precisa ,não de ''fuleiragem'', mas de gente que a faça crescer.Talvez seja julgada ao me manifestar.Talvez digam''mais quem é ela ?'' Pois é…sou TRIUNFENSE acima de tudo…OBRIGADA.

  2. dezembro 30, 2009 9:35 pm

    Adorei a maneira de expressar sua indignação!!Parabéns!!!

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