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Dona Ivone Lara – a diva do samba

abril 26, 2009
Como uma menina negra, pobre e orfã, na década de 1930 no Brasil – quando “tirar a sorte grande” significava só um bom casamento – seria mais tarde uma das artistas mais conceituadas da Música Popular Brasileira? Uma diva do samba. Quem nunca cantarolou sambas clássicos como Sonho meu (“vai buscar quem mora longe, sonho meu…”) ou Alguém me avisou (“Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho…”)? E quem sabe que as composições são da dama do samba, Dona Ivone Lara? Yvonne da Silva Lara nasceu em Botafogo, em 1921. O pai, João Lara, violonista sete cordas. A mãe, Emerentina Bento, cantora de ranchos. A primeira filha de uma casal unido pela música tem sua trajetória contada no livro Nasci para Sonhar e cantar – Dona Ivone Lara: a mulher no samba, da jornalista Mila Burns (ECO/UFRJ), mestre em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ), que faz um estudo antropológico, de gênero e raça, sobre a vida e carreira da cantora e letrista.O ponto central da publicação – resultado de sua dissertação de mestrado – é, a partir da trajetória singular dessa dama do samba, compreender como ela transformou-se na primeira grande compositora feminina (primeira mulher a assinar um samba-enredo) enfrentando situações adversas, seja de sua própria família e origem, ou mesmo das condições externas, sociais e políticas do Brasil. Milla enumera as outras tantas mulheres que também deixaram sua marca no cancioneiro musical brasileiro, ressaltando que foram poucas as compositoras brasileiras, da primeira metade do século vinte, ou pouco antes disso, que conseguiram projeção. O cenário musical era predominantemente masculino. No universo do samba, então, as mulheres com muitos anos de agremiação, no máximo, alcançavam o posto de “tia”. Matriarcas como Tia Ciata ou Tia Surica.”Quando perguntei a Luiz Carlos da Vila, Martinho da Vila, Beth Carvalho e Paulinho da Viola e outros grandes do samba se conheciam mulheres compositoras do ritmo, a resposta, sempre depois de muitareflexão, é que só havia uma, ou, no máximo, duas entre tantos homens. A única que estava presente em todas as constatações era Dona Ivone Lara”, relata a autora. Ao tentar responder então o porquê de Dona Ivone Lara ter alcançado tal posto, Mila articula de modo saboroso e instrutivo o perfil da compositora com a história cultural da sociedade brasileira.A biografia torna-se pano de fundo para a autora analisar manifestações da cultura que compõe a identidade brasileira. “Dona Ivone é a expressão do encontro entre diferentes correntes de tradição cultural. Em sua formação musical, houve uma forte união entre popular (o samba e o chorinho, das rodas que frequentava com a família) e o erudito (presente nas aulas teóricas e nos hinos cantados na classe de canto ofeônico, no colégio)”, observa.Tendo trabalhado muito para poder, só na maturidade, dedicar-se à música, Dona Ivone está longe de se aposentar. Aliás, a palavra não existe no seu vocabulário. Aos 88, ela participa das apresentações com a Velha Guardada Império Serrano e segue inspirando novas cantoras, como Teresa Cristina. Para a moça da nova geração do samba, ainda hoje é difícil para a mulher ter um espaço de respeito na MPB. Mas, se ficou um pouco mais fácil, Dona Ivone Lara é uma das grandes responsáveis pela conquista.

FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/26/viver2_0.asp
TEXTO: MICHELLE DE ASSUMPÇÃO
michelleassumpcao.pe@diariosassociados.com.br
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