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NELSON BARBALHO E LUIZ GONZAGA

abril 6, 2009
Segue abaixo, texto de autoria de Valéria Barbalho, extraído do site do Diário de Pernambuco.

“A MORTE DO VAQUEIRO” DE NELSON BARBALHO

Desde que se conheceram, em 1957, meu pai, Nelson Barbalho, e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, tornaram-se amigos. Todas as vezes que Gonzaga ia a Caruaru arranjava um tempinho para nos visitar. Em uma destas visitas, ele disse que estava com uma música nova e pediu para meu pai fazer a letra. Queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó, que tinha sido assassinado. E contou como tudo aconteceu. Ciente da história e como já estava na hora do almoço, meu pai disse: “Vamos logo comer e depois você toca a música para eu ver se encaixo a letra. Se eu conseguir, ótimo! Senão, nem adianta tentar mais tarde. Só sei fazer letra na hora.” Depois que almoçaram, o Rei do Baião pegou a sanfona, sentou-se numa cadeira, soltou uns aboios, deu uns acordes e puxou o fole… Meu pai, ouvindo a melodia, foi “encaixando” a letra: “Numa tarde bem tristonha…” e assim continuou até o final. Deu-lhe o título: A Morte do Vaqueiro. Seu Luiz adorou. Foi embora, à tardinha, dizendo que ia mostrá-la ao padre João Câncio e encomendar uma missa para Jacó. Pediu autorização do meu pai para cantá-la durante a cerimônia. Como planejado, a missa aconteceu. O padre realizou um ritual belíssimo. Na igreja lotada, Gonzaga comovido cantou pela primeira vez a canção feita para o primo. Todos os presentes se emocionaram. Nos anos seguintes, eles repetiram o evento que ficou conhecido como A Missa do Vaqueiro. Com o tempo outras pessoas começaram a participar da cerimônia, que foi modificada, e “A Morte do Vaqueiro”, substituída. Mas, durante os anos que o Rei do Baião dela participou, ele sempre cantou a canção original. A música já era um sucesso, mas nada de ser gravada. Anos depois, meu pai ao encontrar com seu Luiz lhe perguntou por que não a tinha gravado ele respondeu que tinha tentado várias vezes, mas chorava e não conseguia cantar. Meu pai replicou: “Tu não tem vergonha não? Um babaquara velho desse deixando de gravar uma música só porque chora! Grava logo isso homem!” Finalmente elegravou. Das músicas do meu pai, é a mais famosa. Por conta dela já vivi momentos inesquecíveis. Chorei ouvindo o cantor, Israel Filho, interpretá-la, acompanhado pela multidão que lotava o pátio do forró, durante o São João de Caruaru. Tambem me comovi ao assistir, no hospital onde trabalho, a apresentação do violonista Cláudio Almeida, voluntário do programa Tom Suave (música no hospital). Quando ele tocou a música do meu pai e de Gonzaga, os pacientes logo formaram um grande coral e cantaram a canção inteira. Já sorri, ao gravar para o documentário que estou realizando, o depoimento de Mestre Dila, o Papa da Xilogravura, quando lhe perguntei se ele se lembrava de Nelson Barbalho e ele respondeu: “lembro sim, não foi o autor da morte do vaqueiro?” Logo, corrigindo: “autor da morte não, que ele não era assassino, autor da letra…” Ainda fazendo filmagens, ao encontrar outro mestre, João do Pife, e pedir para filmá-lo tocando “A Morte do Vaqueiro”, me frustrei quando ele disse: “Desculpe moça, mas essa eu não conheço não!” Vendo que fiquei triste, ele continuou: “Mas cante um tiquinho pra vê se eu me lembro!” E, cantarolando, fui interrompida por ele exclamando: “Oxente, é a música do lengo-tengo!” E tocou. No final, feliz da vida agradeci e expliquei que o “lengo-tengo”, como a música também é conhecida, representava, para o meu pai, o som dos chocalhos dos bois andando, de um lado para o outro, mugindo sem parar, lamentando o seu vaqueiro que não vem mais aboiar. Lengo-tengo-lengo-tengo-lengo.
Valéria Barbalho
Pediátra
valeriageni@gmail.com

Fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/06/opiniao.asp

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