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QUE A SANTA BRISA OS APAGUE

março 6, 2009

De Lucivaldo Ferreira

Vila de Santa Brisa, ano 2050. No barraco central a associação de moradores discute um assunto de vital importância. Tião Pitanga, o líder da comunidade, proferia com eloquência o seu discurso recheado de pretensões: “Senhoras e senhores, como podem ver, estão aqui reunidos os mais importantes membros de nossa comunidade. Trataremos, pois, de um assunto muito importante, que poderá beneficiar largamente a nossa vila”.
Uma pergunta imperava na cabeça de todos: O que poderia ser tão importante para aquele fim de mundo?
Tião Pitanga continuava a vomitar palavras: “A nossa vila teve a honra de ser escolhida para entrar no roteiro intergalático de turismo…” Ficaram todos empolgados com a notícia. O líder continuou: “E para abrir com chave de ouro uma nova era em Santa Brisa, estaremos recebendo no próximo mês um caravana de turistas marcianos. Para isto, precisamos tomar algumas providências indispensáveis, que possibilitem conforto e viabilizem a volta desses turistas por muitas e muitas vezes”.
Os participantes da reunião não entenderam nada do que fora dito por Tião, mas emolduraram suas palavras com aplausos de ouro.
Do meio de toda a euforia que contagiava o ambiente, um velho tocador de pífano indagou: “E o que há de tão importante nesses marcianos?”
Tião Pitanga fitou o músico com ares de superioridade e respondeu: “Ah, caro amigo, os marcianos pretendem fixar em nossa amada vila uma fábrica de naves espaciais e artigos nucleares. Isto trará muito lucro, sem sombra de dúvida. Abra sua mente; todo mundo tem muito a ganhar com isso. Por exemplo: O Joaquim, dono do hotel, já tem reservas para mais de um ano; o Zé, aquele dono do bar da esquina, pretende esvaziar todo estoque de bebidas, que ele não consegue vender desde que surgiu essa tal geração saúde. Com certeza o Zé fará muitos negócios, já que em marte não existe cachaça”.
Mas o pobre artista continua cheio de dúvidas: “Seu Tião, e eu com a minha família, ganho o que com isto?”
Tião sabia que não seria fácil convencer o músico, mesmo assim respondeu esnobando: “Ora, sua mulher pode vender pipocas na praça, seus filhos podem ganhar algumas moedinhas tomando conta das naves; e o senhor… O senhor faz alguma coisa além de tocar pífano?”
O pobre velho baixou a cabeça e ficou calado.
Prosseguiu Tião: “É… Talvez dê para ganhar alguns centavos tocando para os marcianos, mas por favor, atualize seu repertório, evite tocar músicas aqui da região. Sabe como é; os visitantes podem não gostar.
Agora prestem muita atenção! Elaborei um plano infalível para melhor recepcionar nossos amigos do espaço: Todos os moradores de Santa Brisa teem um mês para aprender a falar marcianês. Todos devem pintar de verde as fachadas das suas casas. Pra ficar bonitinho, serão distribuídas lâmpadas coloridas. As mocinhas, por favor, sejam gentis com os visitantes.”
Novamente o tocador de pífano interrompe com uma pergunta: “E o que vamos fazer com os famintos e mendigos da nossa vila?”
Todos ficaram em silêncio, esperando mais uma brilhante resposta de Tião.
‘Tai uma coisa que eu não havia pensado. Os turistas não podem vê-los, de forma alguma…” Após alguns segundos pensando, o grande Tião expõe sua brilhante ideia: “Já sei, vamos queimá-los!”
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